A água do rio Doce muda com a chuva e com a estação, e o tratamento precisa de análise contínua.
Poucos rios brasileiros carregam tanta história recente quanto o Doce. Para quem depende dele, como a indústria e o comércio de Colatina, entender a água do rio Doce é uma tarefa de rotina, e não de emergência, e a pergunta de quem busca um tratamento de água em Colatina costuma ser como tratar uma água que muda de qualidade com a chuva, com a estação e com o que chega rio acima.
O que muda na água do rio Doce ao longo do ano
Um rio de grande bacia transporta sedimentos, matéria orgânica, nutrientes e metais, e a quantidade de cada um varia com o regime de chuvas. No período chuvoso, a enxurrada leva solo para o leito e a água fica barrenta. Na estiagem, a vazão diminui e as concentrações de alguns compostos sobem.
A turbidez resume bem essa mudança.
Ela mede a presença de partículas em suspensão, e valores altos indicam que a água carrega argila, silte e outros sólidos. Para o tratamento, turbidez alta significa mais produtos químicos, mais lodo e filtros que saturam rápido.
Além do que vem da natureza, há o que vem da atividade humana. Esgoto, efluente industrial, agricultura e mineração contribuem para a composição da água, em proporções que dependem de cada trecho do rio.
Novembro de 2015 e a lição sobre dependência de uma única fonte
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em Minas Gerais, lançou rejeitos de mineração no rio Doce. A lama chegou a Colatina em 18 de novembro, e a captação da cidade foi interrompida, depois de a de Baixo Guandu ter parado dois dias antes. Foi um episódio em que cidades inteiras ficaram sem a sua principal fonte de água por causa da qualidade do manancial.
O episódio mudou a conversa em toda a bacia. Prefeituras, indústrias e condomínios passaram a olhar para poços, reservatórios e sistemas próprios de tratamento como reserva, e não apenas como luxo.
A lição prática é que depender de uma só fonte, sem alternativa, é um risco. Empresas que usam água em volume, como lavanderias, alimentícias e indústrias de processo, avaliam fontes complementares e capacidade de armazenamento.
Turbidez, metais e outros parâmetros que o laudo precisa mostrar
Quem capta água bruta de rio, ou compra água de caminhão-pipa, deve pedir um laudo completo. Turbidez, cor, pH, sólidos totais, ferro, manganês, alumínio, dureza, condutividade, coliformes e, quando há histórico de atividade mineral, metais como cádmio, chumbo, arsênio e mercúrio fazem parte da lista que o laboratório monta com base no uso.
Os limites de referência para água potável estão na Portaria GM/MS 888 de 2021, que consolidou os padrões de potabilidade. Ferro e manganês, por exemplo, têm limites baixos, de 0,3 e 0,1 miligrama por litro, e a água do rio pode ultrapassá-los em épocas de cheia.
A água usada na indústria não precisa ser potável em todas as etapas, mas precisa atender ao processo. Caldeira, torre de resfriamento e lavagem de produtos têm exigências diferentes, e um laudo orienta qual tratamento serve a cada uso.
Como o tratamento enfrenta a variação de qualidade
O tratamento convencional de água de rio começa na coagulação, com a adição de produtos que agrupam as partículas, seguida de floculação, decantação e filtração. A dose de coagulante muda quando a turbidez muda, e por isso o teste de jarros, feito em bancada, é rotina em estações bem operadas.
Para equipamentos menores, como os de indústrias e condomínios, a lógica é parecida, mas em escala compacta. Filtros multimídia retêm sólidos, filtros de carvão ativado removem cloro, cor e parte da matéria orgânica, e etapas de polimento, como membranas, cuidam do que sobra.
A desinfecção fecha o conjunto. Cloro, ultravioleta ou outros métodos eliminam microrganismos, e a escolha depende do uso e da água que sai do filtro. Desinfetar uma água turva, sem filtrar antes, desperdiça produto e protege pouco.
Reservatório e monitoramento como parte do sistema
Um reservatório bem dimensionado dá tempo para reagir a mudanças de qualidade. Com armazenamento suficiente, uma indústria consegue esperar a passagem de um pico de turbidez ou a normalização do rio sem parar a produção, e uma estação de tratamento ganha tempo para ajustar dosagens.
O monitoramento deve ser contínuo. Medidores de turbidez, pH e cloro instalados na entrada e na saída mostram quando algo mudou, e alarmes avisam o operador antes que a água ruim chegue ao processo. É um investimento pequeno diante do custo de uma parada.
Também ajuda manter contato com a rede de monitoramento da bacia, que divulga boletins sobre a qualidade da água em vários pontos. Essas informações antecipam alterações e orientam decisões de captação.
Quanto custa tratar uma água turva
O custo do tratamento de água de rio depende de quatro itens principais: produtos químicos, energia, mão de obra e destinação do lodo. Quando a turbidez dobra, a dose de coagulante e a geração de lodo sobem junto, e a conta mensal acompanha. Por isso, o orçamento deve considerar o pior mês do ano, e não a média.
O lodo merece atenção.
Ele é formado por sedimentos e pelos produtos químicos usados, precisa ser desidratado e retirado, e seu destino depende da classificação do material. Empresas que ignoram essa etapa descobrem tarde que a retirada custa tanto quanto a operação.
Equipamentos bem escolhidos reduzem o custo no longo prazo. Decantadores de alta taxa, filtros automáticos e dosagem automática conforme a turbidez poupam produtos e tempo do operador.
Água do rio para uso industrial: o que muda por setor
Cada setor pede um nível de qualidade. Uma caldeira exige água desmineralizada ou abrandada, porque sais e sílica formam incrustações. Uma lavanderia precisa de água com baixa dureza e sem ferro, para não manchar tecidos. Uma indústria de alimentos precisa de água potável, com laudos atualizados.
Isso significa que a mesma água bruta do rio vira produtos finais diferentes. O projeto parte do uso e caminha para trás, definindo que tratamento leva a água do rio até a qualidade exigida, e evitando tratar além do necessário.
Em qualquer caso, a análise periódica da água bruta, da água tratada e dos pontos críticos do processo é a base da segurança operacional e a prova de que o sistema funciona, inclusive perante fiscalização e clientes.
Para quem depende do rio todos os dias, um plano de contingência é parte do projeto: o que fazer, quem avisar e quanto tempo o reservatório aguenta se a captação precisar parar.
Quando vale buscar uma segunda fonte
Poços artesianos e semiartesianos costumam ser a alternativa mais comum, com a vantagem de ter qualidade mais estável, ainda que sujeita a ferro, manganês, dureza e salinidade, conforme o aquífero. A outorga do poço, o laudo e o tratamento adequado entram no planejamento.
Outra opção é o reaproveitamento de água de chuva e de efluente tratado, para usos que não exigem potabilidade. A combinação de fontes reduz a dependência do rio e a conta de água, desde que cada uma seja tratada para o uso a que se destina.
No fim, a água do rio Doce pode ser tratada com segurança quando se conhece sua variação, se mede com frequência e se projeta o sistema para o pior cenário, e não para o dia mais fácil do ano.