Ney Lopes: ‘Até um dia, meu filho Ney Jr!’



Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal, professor da UFRN, advogado e pai

Não se pode descrever a dor de um pai e uma mãe despedindo-se do filho para sempre. Ainda na mente, a notícia dada pelos netos, na noite do último dia 30, de que havia falecido Ney Lopes de Souza Júnior, o nosso único filho, presente, amigo e solidário em todos os momentos da vida. O desalento que assaltou a mim e Abigail foi aquele do rei Davi, diante do corpo do filho Absalão, ao exclamar: “Ó meu filho Absalão! Eu preferiria ter morrido no seu lugar”.

Canindé Soares
Ney Lopes Júnior
Ney Lopes Júnior

O sofrimento dilacerante sobreveio, quando acariciamos o seu corpo frio, inerte, aparência tranquila como ele era. Olhamos sua face, contando os segundos que corriam para o fechamento do ataúde e a cremação, por ele desejada. Acariciamos o seu rosto, deitamos a cabeça sobre o seu corpo, apertamos as mãos geladas com um terço entrelaçado, num gesto de comiseração e piedade. O nosso filho querido estava morto.

Recordei aquele 25 de março de 1974, quando com Abigail na Maternidade Januário Cicco, em Natal, aguardávamos o tão esperado único “filho homem”. A expectativa era dar as boas-vindas ao recém-nascido, o que afinal aconteceu.

Passaram-se os anos. Tenho presente a sua extrema dedicação a minha vida política. Criança, ele fazia questão de me acompanhar e falar nos comícios. Junto com amigos dedicados, que lhe homenagearam pós morte, participou da organização da ala jovem do PFL, em Natal e depois em Brasília, onde chegou a presidir nacionalmente o movimento. Todos hoje no exercício da vida pública em vários estados e até integrando o Ministério do Governo Federal. O deputado Felipe Maia, também participante, disse-me no velório, que a história desses jovens idealistas ainda precisa ser contada.

Ney Jr foi um lutador e venceu o bom combate. Semeou o bem, por onde passou, comprovado pela unanimidade de mensagens carinhosas, calorosas e verdadeiras, que temos recebido, lido e ouvido, de tantos que tiveram a felicidade de com ele conviver. Embora bem assistido por médicos, Ney Jr sofreu muito nos últimos anos. Em plena campanha passada, internou-se em UTI com pneumonia (teve três em períodos diversos), duas vezes Covid e processos depressivos. Essas foram as causas do seu insucesso eleitoral em 2020, impossibilitado de fazer a campanha.
Quando se imaginava curado, veio o laudo médico do óbito, acusando como “causa mortis” edema e congestão pulmonar, enfarte agudo do miocárdio; cardiopatia isquêmica e doença arterial coronariana. Há quem admita tenham sido fatais efeitos colaterais do terrível coronavírus.

Com apenas 47 anos de idade foi-se para a Eternidade. Deixou legado de um ser humano, de profunda sensibilidade social. Demonstrou isso ao concluir em Washington DC um mestrado em direito econômico e ser convidado para trabalhar no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Optou por ingressar na política em Natal e ajudar os desprotegidos.

Aprovou como vereador 52 projetos de lei na Câmara Municipal de Natal, todos eles voltados para os mais necessitados. Propôs, em convenio da Câmara Municipal com o Tribunal de Justiça, a implantação da mediação comunitária em Natal, como forma de solução rápida dos conflitos judiciais de pessoas carentes. A propósito, o arcebispo Dom Jaime, ao dar uma benção no corpo, fez o registro da sua vocação de servir, depois ratificado pelo amigo padre Charles, que oficiou a missa de corpo presente e acompanhou a cremação.

Guerreiro, não desistiu nem por um só segundo, mesmo quando lhe pesava nos ombros a dor física, psicológica e o sentimento avassalador das intempéries sofridas, que por vezes não podiam ser expressas, nem tampouco remediadas. Para atingir os seus objetivos precisou muitas vezes rumar mar adentro, mesmo sob o risco de naufragar, mas sempre com o maior objetivo de persistir na luta pelos que acreditava. Como dizia São Tomás de Aquino: “Se a meta principal de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre. …”! E você, sempre o manteve em “alto mar”, remando, muitas vezes, contra a maré, sob maus tempos e ventanias, desbravando caminhos, por causas pelas quais se comprometera publicamente.

Ney Jr a todos tratava com educação e urbanidade. Por isso, as correntes políticas locais manifestaram pesar, sem exceções. Exerceu os cargos de Prefeito de Natal e Presidente da Câmara Municipal, em caráter transitório. Na condição de prefeito constatou o clamor dos servidores com atraso de vencimentos, em período natalino. Conseguiu levantar no TRT um depósito da PMN e pagou aqueles de menor salário. Em 48 hs autorizou um “mutirão” de limpeza pública em Natal. Quando deu posse a Carlos Eduardo saiu do prédio da Prefeitura sob aplausos. No sepultamento no Morada da Paz foram 79 coroas em sua homenagem. Não teve mais pelo estoque de flores ter acabado no cemitério.

Eu, Abigail e familiares lutaremos para conseguir suportar a ausência do filho e amigo querido. Não vai ser fácil. Mas, descanse em paz Ney Jr. Você ainda poderia nos dar muitas alegrias, mas escolheu ser “saudade”. Por força da saudade, ainda convive entre nós.

Como escreveu a sua irmã Ana Lilian, no livro da missa de sétimo dia, temos a certeza que cumpriu o seu ciclo na vida da melhor forma, até o fim… nunca desistindo de lutar! Hoje, rogamos a Deus que tenha alcançado a paz tão merecida, e descanse, enfim, nos braços do Pai! Te amaremos para sempre, e para sempre, não tem fim! Sabemos que está apenas no outro lado do caminho e que Santo Agostinho tem razão ao dizer, que “a angustia de ter perdido, não supera alegria de ter um dia possuído”. O vazio da sua ausência de Ney Jr será preenchido em nosso reencontro da Eternidade.

Até um dia, meu filho Ney Jr, até um dia!

PS. Nesta segunda, 6, às 18h30 missa de sétimo dia de Ney Lopes Jr, na Igreja de Santa Terezinha, em Natal.