Entre 25 e 85 quilowatts-hora por mês. Essa é a faixa de consumo de uma geladeira doméstica no Brasil, segundo a tabela de consumo médio do Procel e os testes de etiquetagem do Inmetro. Em dinheiro, com a tarifa residencial média do país, isso significa de pouco mais de R$ 20 a mais de R$ 70 por mês, antes dos impostos, só para manter um aparelho ligado.

A variação é grande porque geladeira não é um produto só. Um modelo de uma porta de 240 litros e um duplex frost free de 550 litros fazem o mesmo trabalho, mas com custos mensais que chegam a dobrar. E o número na etiqueta é medido em laboratório, com porta fechada e ambiente controlado. Na cozinha de verdade, ele sobe.

Este texto mostra de onde vêm esses números, como transformar quilowatt-hora em reais e o que faz uma geladeira gastar mais do que deveria.

A tabela do Procel, tipo por tipo

O Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica mantém uma tabela de consumo médio mensal de eletrodomésticos, calculada para funcionamento contínuo de 24 horas por dia durante 30 dias.

Para refrigeradores, os valores são estes: geladeira de uma porta comum, 25,2 kWh; uma porta frost free, 39,6 kWh; duas portas comum, 48,24 kWh; duas portas frost free, 56,88 kWh. Freezer vertical ou horizontal fica em 47,55 kWh.

A leitura mais útil dessa tabela é a distância entre o primeiro e o último valor. Uma duplex frost free consome mais que o dobro de uma geladeira simples de uma porta. Parte disso é volume interno, parte é o sistema de degelo automático, que aquece o evaporador em ciclos para impedir a formação de gelo e, nesse processo, gasta energia.

Modelos maiores, de três portas ou side by side, passam dessa tabela. Em levantamento da Copel com base nos aparelhos avaliados pelo Inmetro, o consumo mensal chega a 85 kWh nos refrigeradores de maior capacidade.

Para uma casa com consumo médio, esse valor sozinho representa metade da conta de luz, segundo a mesma distribuidora. O Idec, com outra base de cálculo, estima que a geladeira responde por cerca de 22% do consumo de uma residência brasileira. Os dois números são compatíveis: dependem do tamanho da geladeira e do que mais há na casa.

Transformando quilowatt-hora em reais

A conta é simples. Consumo mensal em kWh multiplicado pelo preço do kWh na região. A Aneel projetou a tarifa residencial média do Brasil em R$ 849 por megawatt-hora até o fim de 2026, o que equivale a R$ 0,85 por kWh, sem ICMS e sem bandeira tarifária. Com impostos, que variam de 18% a 32% conforme o estado, o valor real pago fica entre R$ 1,00 e R$ 1,12 por kWh na maior parte do país.

Aplicando R$ 0,85 à tabela do Procel: a geladeira de uma porta comum custa cerca de R$ 21 por mês. A duplex frost free, R$ 48. Um modelo grande de 85 kWh, R$ 72. Somando os impostos, esses três valores sobem para algo perto de R$ 25, R$ 57 e R$ 85, com variação conforme a alíquota do estado.

Em setembro de 2026 a bandeira tarifária está amarela, com acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. Para a geladeira, isso soma menos de um real por mês. A bandeira pesa na conta total da casa, mas não muda a ordem de grandeza do gasto do refrigerador.

Quem muda a ordem de grandeza é o tempo. Geladeira dura de 10 a 15 anos. Ao longo de uma década, a diferença entre um modelo de 40 kWh e outro de 60 kWh por mês passa de R$ 2.000 em energia, com a tarifa de hoje. Em muitos casos, isso é mais do que a diferença de preço entre os dois na loja.

A etiqueta do Inmetro e o que ela mede

Toda geladeira vendida no Brasil traz a etiqueta do Programa Brasileiro de Etiquetagem, com uma classificação de eficiência e o consumo mensal em kWh medido em teste padronizado. Dentro de cada categoria de tamanho e tecnologia, a letra A indica os modelos mais eficientes.

A comparação precisa ser feita dentro da mesma categoria. Duplex frost free classe A pode consumir mais do que geladeira simples classe B, porque a classe compara o aparelho com seus semelhantes, não com o mercado inteiro. O número absoluto de kWh na etiqueta é o dado que resolve a dúvida, e ele deveria ser o primeiro item a olhar, antes do preço.

Quem procura uma geladeira mais econômica em energia costuma encontrar comparações entre modelos que partem justamente desse número da etiqueta, cruzado com capacidade em litros e tecnologia de compressor. Isso ajuda a evitar um erro comum: escolher pela letra e ignorar o consumo real impresso logo abaixo dela.

O teste de laboratório é feito com a porta fechada, a uma temperatura ambiente fixa e sem carga de alimentos quentes. Na rotina de uma família, o consumo real fica acima do que a etiqueta diz. A margem varia, mas eletricistas e técnicos costumam trabalhar com 20% a 30% a mais como referência para casas com uso intenso.

O que faz o consumo subir na prática

A porta é o maior vilão. Cada abertura deixa o ar frio escapar e obriga o compressor a trabalhar para recuperar a temperatura. O Inmetro, em orientação divulgada em janeiro de 2026, cita o abre e fecha constante como um dos hábitos que mais elevam o gasto. Família que abre a geladeira 40 vezes por dia paga por isso no fim do mês.

A borracha de vedação é o segundo ponto. Quando ressecada ou rasgada, ela deixa passar ar quente de forma contínua, e o compressor quase não desliga. O teste caseiro é conhecido: prender uma folha de papel na porta fechada e puxar. Se sair sem resistência, a borracha precisa de troca.

Posição também conta. Geladeira encostada em fogão, exposta ao sol da tarde ou prensada contra a parede, sem espaço para o condensador dissipar calor, trabalha mais. Os manuais pedem folga de alguns centímetros atrás e nas laterais, e essa recomendação existe por causa do consumo, não por estética.

Gelo acumulado em modelos sem degelo automático age como isolante ao contrário: cobre o evaporador e reduz a troca de calor. Camada acima de um centímetro já compromete. Nos frost free, o problema é outro: alimento quente colocado direto na geladeira dispara o ciclo de degelo mais vezes do que o necessário.

Resta o termostato. Muita gente mantém a geladeira no nível máximo de frio o ano inteiro. Para a maioria dos modelos, a posição intermediária mantém os alimentos a uma temperatura segura, entre 3 e 5 graus, e reduz o trabalho do motor.

Geladeira antiga gasta quanto a mais

Refrigeradores fabricados antes de 2010 usam compressores convencionais, sem controle de velocidade, e isolamento térmico menos eficiente. Um modelo de 15 anos pode consumir de 50% a 100% a mais do que um equivalente atual na mesma capacidade.

Em kWh, uma geladeira duplex antiga que gasta 90 kWh por mês custa perto de R$ 76 mensais com a tarifa atual, contra R$ 48 do modelo novo. A diferença anual passa de R$ 330.

Esse cálculo é o que define se vale trocar. Uma geladeira nova de 550 litros classe A custa, em média, entre R$ 3.000 e R$ 4.500. Com economia de R$ 330 por ano, o retorno leva de nove a treze anos, prazo próximo da vida útil do aparelho.

Ou seja, a troca por economia de energia só compensa quando a geladeira velha já está com defeito ou o consumo dela é extremo. Trocar uma geladeira de cinco anos em bom estado raramente se paga.

O compressor inverter, presente nos modelos mais novos, muda parte dessa equação. Ele ajusta a rotação conforme a necessidade, em vez de ligar e desligar em ciclos completos, e reduz o consumo entre 20% e 40% em relação ao compressor convencional. Nos testes de etiquetagem, os modelos com essa tecnologia dominam a classe A nas categorias maiores.

O que dá para fazer hoje, sem gastar nada

Conferir a borracha da porta, afastar a geladeira da parede, deixar alimento esfriar antes de guardar, descongelar o freezer quando o gelo passar de um centímetro e ajustar o termostato para a posição média são medidas que, juntas, tiram de 10% a 20% do consumo em aparelhos mal cuidados.

Para uma duplex de 57 kWh, isso representa entre R$ 5 e R$ 10 por mês, ou até R$ 120 por ano. Não é uma fortuna. Mas é dinheiro que sai da conta sem nenhum sacrifício, e o hábito de olhar a etiqueta na próxima compra evita a diferença de R$ 2.000 ao longo da vida útil do aparelho seguinte.


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